COVID LONGA: SÍNDROME OU SEQUELA EMOCIONAL?

COVID LONGA: SÍNDROME OU SEQUELA EMOCIONAL?

Quando um grande número de soldados americanos retornaram da Guerra do Golfo de 1991 exibindo sintomas de cansaço severo, pruridos e desordens gastrointestinais, médicos acreditavam se tratar de sequelas emocionais da dura vivência no campo de batalha. Durante vários anos, 250.000 veteranos, 30% dos destacados, não obtiveram a resposta adequada aos sintomas, e muitos dos que buscavam tratamento médico era dado como transtorno de estresse pós-traumático (PTSD). A fumaça do óleo queimado dos poços de petróleo pode ser a causa principal da intoxicação química, mas vacinas e tratamentos para intoxicação química e ataques podem ter contribuído para a síndrome como todo.  Somente em 2007,  16 anos após, os EUA iniciaram uma investigação profunda sobre as causas destas doenças e tornou-se evidente que os sintomas apresentados de fato tinham origem na exposição química, que afetou não somente os veteranos, mas os seus descendentes e pessoas que tiveram contato com eles também. Esse fato tem que ser uma lição, foram 20 para dar uma resposta adequada a uma síndrome é um desafio que deve ser enfrentado com a covid longa.

Com crescentes queixas de sequelas e dificuldade se estendendo por um longo período após se contrair COVID-19, um fenômeno similar parece estar ocorrendo entre pacientes em recuperação do coronavírus, onde muitos recebem um diagnóstico de “sequelas emocionais”. 

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) convocou os países para priorizar o reconhecimento, a reabilitação e a pesquisa para as consequências do COVID-19, e a coleta de dados padronizados em Long Covid e propôs que o termo “condição pós-COVID-19” deveria ser usado para as pessoas convivendo com uma covid de longa duração.

A doença coronavírus (COVID-19) representou e representa ainda hoje desafios antes inimagináveis aos sistemas de saúde em todo o mundo. Novas iniciativas de pesquisa estão sendo criadas em resposta e para entender o porquê de algumas pessoas infectadas com COVID-19 não se recuperarem totalmente ou desenvolverem sintomas novos ou recorrentes após a recuperação. 

O impacto no organismo mais evidente é a redução da capacidade respiratória, algo que traz um grande impacto negativo na qualidade de vida. As possíveis sequelas da Covid-19, porém, são muito mais extensas, e deixaram de ser um problema individual para se tornarem uma grande preocupação de saúde pública, tanto no Brasil quanto no mundo. Esse fenômeno foi denominado de Covid Longa pela própria OMS, que utilizou como base o maior levantamento feito até hoje pela The Lancet, com estudos da Inglaterra e do Brasil.  

Entre os mais extensos, o estudo publicado na EClinicalMedicine (The Lancet) teve a participação de 3 762 pessoas, de um total de 56 países. Nele, foram observados casos onde os sintomas da doença persistiram após 28 dias, e 91% dos indivíduos precisaram mais de 8 meses para se recuperar.

Pesquisadores do Imperial College e do King’s College, da Inglaterra, apontaram mais algumas prováveis complicações da Covid longa: alterações cognitivas que prejudicam a memória, o raciocínio e a capacidade de resolução de problemas. O estudo também revela ainda que um ano após o surgimento do primeiro caso de infectado pelo Coronavírus, cerca de 80% dos pacientes em recuperação apresentam aspectos associados à Covid prolongada.

No Brasil, o fenômeno da covid longa fez com que fosse criado o projeto Coalizão VII, onde mais 1000 pessoas foram monitoradas, a cada 3, 6, 9 e 12 meses e concluiu que os sintomas podem persistir dos casos leves aos mais graves, afetando coração, pulmões, rins e intestino. O projeto conta com a participação de vários hospitais brasileiros e do Ministério da Saúde.

O impacto a longo prazo da COVID-19 ainda é difícil de compreender e estimar. Enquanto muito se debate com relação ao impacto imediato das vidas perdidas e da desaceleração da economia, ainda há inúmeras incertezas sobre o quão duradouras serão as consequências para a sociedade pós-pandemia. 

Enquanto isso, especialistas debatem e até esperam que a Covid longa seja classificada como doença, o que facilitaria burocracias e pesquisas, mas essa decisão ainda não foi homologada. Assim aconteceu com a síndrome do Golfo, doença que também demorou para ser classificada, dificultando a elaboração de um tratamento. 

Leia mais em: 

https://saude.abril.com.br/medicina/uma-doenca-chamada-pos-covid/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8206628/#bb0035

https://sites.unipampa.edu.br/cienciacao/files/2021/04/coalizao-covid-brasil-um-estudo-sobre-as-sequelas-do-coronavirus.pdf

https://veja.abril.com.br/saude/a-verdadeira-terceira-onda-o-drama-de-quem-enfrenta-a-covid-longa/

https://www.thelancet.com/journals/eclinm/article/PIIS2589-5370(21)00324-2/fulltext

https://www.news-medical.net/health/What-is-Gulf-War-Syndrome-(Portuguese).aspx

https://www.who.int/news/item/12-08-2021-post-covid-19-condition-who-supports-standardization-of-clinical-data-collection-and-reporting